Caros leitores, pretendo discutir um tema que tem sido muito debatido dentro dos fóruns do Programa Brasileiro Rota 2030 [1], pelo fato de tratar-se de um segmento que mais foi prejudicado nas últimas décadas, isto é, as ferramentarias, principalmente as que tratam de moldes e estampos. Durante anos, presenciamos a falência desta área devido à falta de incentivos governamentais e o agravante da entrada de produtos importados em nosso mercado com menor custo.

A situação desesperadora pode ser resumida em duas frentes, como a falta de um parque fabril qualificado no Brasil e ainda a ausência de know how local para atender a demanda Global para os novos produtos. Diante de tantas dificuldades e a clara necessidade de investimentos neste campo, parece que “chegou a hora” e ainda eu diria, se tem um tema em destaque no Brasil, este está entre os mais importantes. Para entender este cenário, abordarei a parte que realmente carece de mais P&D.

Em frente das necessidades e pelos apoios recentes, o segmento de estampagem de peças automotivas está iniciando sua plena ascensão, na procura de processos mais baratos, rápidos e eficientes sem deixar de lado a qualidade do estampado. Para entender esta situação, temos que focar no hoje e no amanhã. Os aços de alto desempenhos exigem muito das ferramentas, pelo fato de quase sempre estarem associados a problemas de qualidade no produto e também na limitação de formas dimensionadas nos projetos diante da dificuldade de conformação mecânica.

O aumento crescente da exigência de condições de segurança nos veículos, tratados pelas novas leis de impactos laterais, condições específicas para os tipos de colisões frontais, laterais e encapotamento [2,3] , são os que mais impulsionam estes novos aços e novos processos, todavia a limitação operacional de ferramentas e também seu tempo de vida andam em lados opostos. Localmente em nosso país, temos uma missão constante para produzir peças estampadas em menos etapas durante sua conformação, reduzindo significativamente os custos de projetos e este fato ainda adiciona mais dificuldades e tem agravado a vida útil do ferramental e também na geração de refugos de peças.

Diante de todo este universo, ainda tem uma disputa acirrada entre a estampagem a frio e estampagem a quente para a escolha da rota de beneficiamento de aços de alta resistências, principalmente os aços acima de 1000 MPa. Atualmente, há uma preferência aos processos de estampagem a quente mesmo com todos os problemas de ferramental, custos e o know-how envolvidos, porém este cenário convergirá no futuro próximo ao equilíbrio para as duas técnicas, com tendência para preferenciar a conformação a frio, porém, muito desenvolvimento ainda precisa ser feito nos processos e nos ferramentais, sem contar na melhoria contínua da capacidade de estampabilidade destes novos aços.

Para estes estudos de conformação mecânica, a tribologia tem sido uma ciência que mais ajuda a entender e a superar os desafios destes processos, sendo muitos deles presentes nas superfícies dos materiais, como a rugosidade e revestimentos. Atualmente, a maior parte dos aços estampados a frio são revestidos com zinco através de imersão a quente ou eletrogalvanizado e outros revestidos com Al-Si para estampagem a quente, todavia existe outras opções de revestimentos com Zn-Fe e Mg-Zn que entram na disputa para estes dois processos. Para qualquer que seja a rota escolhida, a decisão do tipo de revestimento também precisa estar associada com a resistência a corrosão do produto final. Resumindo esta questão, ilustro o desempenho, qualidade e custo do produto, escolha do aço, revestimento e etapas de conformação mecânica como as inúmeras variáveis que qualificam claramente a dificuldade deste campo e suas oportunidades de inovação [4].

Todo esforço dentro deste cenário será muito importante para atingirmos a melhores práticas para aplicarmos as melhores rotas dentro das etapas de projeto e desenvolvimento de um veículo, como exemplos: constante diálogos precisam ocorrer entre estampeiros, usinas e montadoras; sem contar da necessidade de avanços tecnológicos dentro dos centros de P&D, no sentido de oferecer o conhecimento necessário para o avanço neste segmento e por fim, atingirmos o estado da arte para esta tecnologia. Lembrando que, já começamos esta corrida aqui no Brasil, porque alguns dos principais pilares do Programa Brasileiro da Rota 2030, assinado recentemente pelo Governo Federal, referenciam os moldes e a manufatura avançada e ainda durante a edição desta revista, estão em análises no governo e Comitê Gestor diversas propostas de PPPs (Programas de Projetos Prioritários) e parte delas abordam estudos de ferramentas através dos incentivos fiscais advindos das montadoras [5], portanto, precisamos apenas entender os problemas, construir estratégias e planejamentos e, por fim, a execução.

Boa sorte!

 


 Referências

  1. https://www.rota2030.com.br/
  2. http://www.denatran.gov.br/index.php/contran
  3. https://www.latinncap.com/po/
  4. https://pt.linkedin.com/pulse/o-futuro-das-ferramentarias-desafios¬-dos-gestores-de-ant%C3%B4nio
  5. http://www.mdic.gov.br/index.php/competitividade-indus¬trial/setor-automotivo/projetos-e-programas-prioritarios/2-unca¬tegorised/3890-propostas-ppp