Em 2017, quando o líder da maior empresa global de aço foi questionado sobre a preocupação em relação à presença crescente do alumínio no setor automotivo frente ao aço, a resposta foi supreendente: “Minha preocupação é o veículo autônomo”. Sua resposta repercutiu nos quatro cantos do mundo e atordoou muita gente dentro das comunidades de materiais e este tema será o foco desta coluna. Caros leitores, será que estamos caminhando para um futuro sem acidentes, sem “crashs”, e mais limpo? Estas perguntas já têm sido abordadas ao longo de declarações globais de líderes de montadoras, que já colocam estes temas como pilares em sua visão estratégica de médio e longo prazo.

Debatendo esta questão e pensando no presente, o foco dos engenheiros e entidades de avaliação estrutural de veículos que procuram melhorar a qualificação dos produtos em números de estrelas, ou seja, melhores pontuações no quesito segurança veicular, é o que tem feito a entidade NCAP no mundo e aqui no Brasil[1]. Se pensarmos em materiais, a presença dos novos produtos que estarão utilizando os materiais avançados, sejam eles aços de última geração, alumínio e compósitos, todos alimentam oportunidades de melhorias no desempenho de segurança. Em adicional, também os novos projetos de veículos têm um papel ainda mais importante, porque conseguem desenvolver novos conceitos de estruturas veiculares.

Considerando a importância do benefício de aplicação de cada tipo de material, cito três exemplos distintos e contraditórios ocorridos em lançamentos de veículos, isto é, em cada projeto optou-se para uma linha de material: A Ford em 2014-2015 lançou a Pickup F150[2] priorizando o uso do alumínio; sequência, em 2016, a GM lançou a nova Silverado[3] considerando a presença maciça de aços; e mais recentemente, o modelo 2019 da nova Pickup da GM Sierra[4] já conta com a utilização e sinergia de vários tipos de materiais dissimilares, como os compósitos, plásticos, alumínio e aços, ficando claro que a tendência mais recente na mudança comportamental na tentativa de buscar melhores resultados tem aproveitado a junção de diferentes materiais e apoiado no efeito sinérgico de suas propriedades.

Enquanto os novos materiais estão avançando e mais presentes nos veículos, outra tendência que vem crescendo neste meio é a conectividade, sistemas inteligentes e navegação, que cada vez mais estão independentes do motorista, e isto já acontece em sistemas de freios (Brake Assist), dirigibilidade seguindo faixa da estrada (Road Sign Assist), estacionamento automático (Park Assist), piloto automático, freios antitravamento (ABS), controle de tração e, por fim, o veículo autônomo. Ao mesmo tempo em que estes dispositivos estão sendo criados para uma atuação preventiva, os veículos também contam com atuação na contenção e/ou corretiva para o caso da ocorrência de acidente, se beneficiando do uso de AirBags, cinto de segurança de três pontos, travamento isofix, barras de impacto, destravamento automáticos de portas, monitoramento de alerta de colisão  e contato online via fone com os ocupantes do veículo. E é neste campo de contenção que adiciona-se melhores desempenhos dos materiais associados aos benefícios dos novos conceitos de estruturas.

Diante de tantos avanços tecnológicos, diversas opções de materiais e uma enorme versatilidade de projetos, não temos dúvidas que a segurança veicular é um campo constante de discussões e desafios, e por isto os esforços de P&D ainda têm um longo percurso para avançar, mas é importante que qualquer que seja a rota seguida, não podemos pensar apenas em um pilar desta questão, e sim para todo o conjunto. Como citado no último exemplo da Pickup Sierra, o momento de P&D em produtos automotivos visam uma associação de materiais dissiminares e por isto temos desafios enormes para superar, como a união desses materiais, questões de corrosão, processamento e manufaturabilidade.

Parece simples, mas perguntas sobre como fixar um compósito com aço, soldar alumínio com aço, manusear chapas de alumínio em linhas de estampagem de aço, processar materiais dissimilares em banhos de pinturas por eletrodeposição e, por fim, graus e formas diferentes de reciclabilidade no produto final alimentarão as linhas de P&D. Enfim, destes poucos exemplos, temos inúmeras perguntas técnicas que precisam ser exploradas. É por isto que a comunidade científica está apoiando estas iniciativas, e ainda em paralelo nesta linha, espera-se que a aprovação do programa Brasileiro Rota 2030[5] pelo Governo Federal abra uma enorme porta para estes temas nos próximos anos no mercado brasileiro, exigindo parcerias entre instituições, montadoras e sistemistas e, talvez, possamos entender melhor a opinião do principal líder do aço em futuro não tão distante. Isto é, por que se preocupar com melhores desempenhos do materiais se no futuro não deve existir acidentes. Enfim, o nosso momento de hoje moldará o Brasil de amanhã. Muito obrigado e até a próxima edição.


 

 Referências

  1. https://www.latinncap.com/po/
  2. https://www.sae.org/news/magazines/content/14autp11
  3. http://gmauthority.com/blog/2016/06/latest-chevrolet-marketing-initiativetouts-advantages-of-silverados-roll-formed-high-strength-steel-bed-video/
  4. https://www.sae.org/news/2018/03/carbon-fiber-cargo-box-for-2019-gmc-sierra
  5. http://www.mdic.gov.br/noticias/2447-ministro-marcos-pereira-lanca-rota-2030-mobilidade-e-logistica