Há alguns meses, a Kobe Steel - a terceira maior siderúrgica japonesa - fez um anúncio surpreendente, revelando que uma investigação interna havia descoberto vários casos de falsificação de dados relativos às propriedades de ligas de cobre e alumínio que ela havia fornecido para indústrias automotivas e ferroviárias - e, possivelmente, também aeronáuticas. Isso, naturalmente, levantou a possibilidade de problemas de segurança com os veículos feitos com esses materiais, os quais apresentavam alto risco de se encontrarem fora das especificações adequadas.

O impacto da notícia foi ainda maior para os veteranos na área siderúrgica. Afinal, há trinta anos, o Japão se encontrava em pleno boom econômico, era o maior produtor mundial de aço e o segredo de seu sucesso era justamente uma busca fanática pela qualidade e excelência. Cursos e livros de controle de qualidade total (TQC, Total Quality Control), baseados na filosofia japonesa, eram avidamente procurados por quem queria entender como a ponderada ética budista proporcionava prosperidade sustentável ao invés de administrações obcecadas por oferecer polpudos lucros aos acionistas a cada trimestre.

Os tempos eram outros. A Guerra Fria ainda era uma ameaça travando a globalização; a China engatinhava no cenário internacional mas, uma década depois de ter se livrado de seus delírios ideológicos, já se encontrava marchando firmemente rumo a um brilhante desenvolvimento econômico; e os Tigres Asiáticos estavam prestes a acordar. Hoje os antigos oponentes ideológicos participam ativamente de uma economia altamente darwiniana, onde só o mais apto sobrevive.

O episódio da Kobe é muito incômodo. Primeiro, por ocorrer numa grande empresa de um país que muito influenciou as modernas doutrinas de garantia da qualidade. E também por não ser único: pouco antes, outra firma japonesa, a Takata, havia assumido suas falhas na ocorrência de problemas recorrentes de qualidade nos airbags fornecidos a seus clientes. Pode-se citar ainda o Dieselgate, em que a Volkswagen - e também outras montadoras - manipulou os programas de injeção eletrônica de seus motores diesel de forma a reduzir a geração de gases poluentes ao detectar a execução de diagnósticos sobre suas emissões. E há quem afirme que esses casos públicos são apenas a ponta do iceberg. Eles deixam claro que a busca extrema pela competitividade está motivando atitudes pouco éticas por parte de algumas empresas. Isto não chega a ser exatamente uma novidade, mas mostra que o tal liberalismo econômico está muito longe de ser auto-regulatório. Caveat emptor - o comprador que se cuide!

A questão envolvendo a Kobe parece refletir a difícil situação pela qual o setor metalúrgico vem passando há anos. A bipolaridade chinesa, que fez com que o país passasse de importador voraz para exportador agressivo, ainda está causando enorme perturbação entre os fabricantes de metais e afetando muito suas margens de lucro. Há também quem afirme que o grande esforço tecnológico que está sendo feito no desenvolvimento de novas ligas metálicas - seja aço, alumínio ou magnésio - para atender os requisitos cada vez mais severos da indústria automotiva, em termos de redução de peso e aumento de segurança, também está cobrando seu preço, não só em função dos custos diretos de pesquisa e desenvolvimento, como também do investimento necessário para a adequação ou mesmo construção de novas plantas industriais que estejam aptas a produzir economicamente esses novos materiais. Mas tudo isso será inútil se for perdida a confiança no produto que está sendo adquirido. O Caminho do Meio proposto por Buda pode ser pedregoso, mas é o único viável a longo prazo. IH